sexta-feira, 17 de junho de 2011

Capítulo 21 - 2ª parte

Engasgo e me jogo na terra, me enlameando totalmente no processo. Parece que algum gancho está puxando a pele de minhas costas para fora. Meu desespero é tanto que acabo arranhando meu rosto. A lama fria não faz efeito à queimação que agora está em minhas costas. Não consigo gritar, ou assim penso já que não consigo nem raciocinar direito. A dor dura não mais que alguns minutos depois e tão rápido quanto veio, ela parou. Fiquei um momento parada, tentando me acalmar. Mascarado olhava pra mim com cara de espanto e aos poucos suas feições foram mudadas, até ficarem maravilhadas.

- O que foi?

- Suas asas.

Tentei olhar para as minhas costas, mas como isto era impossível, me contentei com o passar de minhas mãos em suas tão macias e adoráveis penas. Mas, logo depois lembrei do estado em que me encontrava, a parte de trás de meu vestido havia rasgado para poder dar lugar as asas em minhas costas, a parte de baixo também não estava muito melhor, já que a lama havia impregnado tudo.
Preciso de roupas novas.

- E de um banho – ele completa para aumentar minha desgraça.

- Você também não está muito limpinho.

- Mas você ganha de mim – disso eu não podia discordar.

- O que eu faço?

- Deve ter algum lago ou algo do tipo se a gente entrar mais pra dentro da floresta.

- Mas isto iria nos atrasar, certo?

- Certo, mas também iria nos despistar, já que seus gritos acabaram com nossas chances de passarmos despercebidos – então eu gritei, bom saber.

- Rumo ao laguinho!!

- O quê?

- Nada, vamos.

Mascarado liderou o caminho. Fez sua mágica e, ao que parece, as cartas lhe mostraram o caminho certo a percorrer. Ele disse que foi por isso que também sabia a saída do castelo, havia feito a mesma coisa antes de ser capturado por Aurora.



Cerca de duas ou três horas depois, enfim, encontramos o lago. Minhas pernas já não mais aguentavam meu próprio peso e me deixei cair na terra, meu vestido já estava acabado mesmo. A água brilhava verde - azulado me convidando a entrar lá dentro.

- Mascarado, vá arrumar alguma coisa para passar seu tempo longe daqui.

- Por que?

- Porque eu vou entrar.

- E por que eu não posso?

- Porque você é um cavalheiro e vendo como meu estado está muito pior que o seu irá me deixar ir primeiro.

- Tudo bem, mas só porque seu estado é realmente decadente.

- Idiota.

Quando não consigo mais ouvir seus passos começo a me despir, uma coisa muito fácil e rápida já que minha vestimenta está completamente rasgada. Sinto as águas com meu pé, gelada. Mas, se eu entrar de uma vez não vou sentir tanto, né? Pelo menos minha mãe sempre disse isso, uma pena que eu nunca escutei ela. Enquanto a Lua se erguia mais e mais e o clima começava a esfriar, ouço passos vindos em minha direção, bom, é agora ou nunca. Pulo e sinto o frio das águas entrar em contato com minha pele. Minha mãe aparentemente estava errada, ainda continuo com frio.



- Já acabou?

- Claro que não. Acabei de entrar. Agora trate de sair daqui!

- Mas está escurecendo e eu já aproveitei e trouxe alguns pedaços de madeira para fazer uma fogueira.

- Não foi você que brigou comigo por dar a ideia de fazer uma?

- É, eu sei, me desculpe, mas o frio ganhou e estamos bem no meio da mata, duvido que eles consigam nos ver.

- Tudo bem, agora saia daqui.

- Não. Eu estava pensando, o que você vai vestir?

- Bem, o vestido pode ter ficado realmente arruinado, mas a roupa de baixo, que pra mim mais parece uma camisola, está bem conservada e eu estava pensando se alguém não seria educado o suficiente para me dar seu paletó.

- Está falando de mim?

- Está vendo mais alguém por aqui?

- Sabe, eu nunca vi uma donzela tão simpática e gentil como você.

- Que bom saber.

Mascarado começa a desabotoar o paletó, só que para meu completo constrangimento, não para por aí. Quando percebo que ele vai tirar toda a roupa, me viro de costas, tentando fazer com que a vermelhidão quente de meu rosto saia com o ar frio da noite.



- O que você está fazendo?

- O que parece?

- Só sei de uma coisa, você não vai entrar aqui.

Ele para um instante, parecendo ter escutado algo, inclina sua cabeça para direita, vai direto até nossas roupas e as joga atrás de uma moita e corre o mais rápido possível pra dentro d'água.

- Isso não é mais uma opção.

- O que foi? - sem se dar ao trabalho de responder, ele apenas põe o dedo indicar em seus lábios e sinaliza pra mim preder o folego. Mal deu tempo de fazer o que ele disse que este já me puxa pra baixo d'água junto consigo.

Olho para cima e vejo cavalos chegando até onde pouco segundos antes ele estava.

- Pensei ter ouvido alguma coisa por aqui. Mas deve ter sido somente o vento nos enganando mais uma vez - um dos guardas fala.

- É. Vamos voltar logo antes que o príncipe se irrite com nossa demora.

- Claro – ficamos debaixo d'água um pouco mais, só para o caso de eles ainda estarem lá.

Não aguentando mais a falta de ar, sou a primeira a emergir sobre as águas profundas e escuras.



Não aguentando mais a falta de ar, sou a primeira a emergir sobre as águas profundas e escuras. Mascarado veio logo atrás.

- Fique longe – avisei.

- E se eu não quiser? - foi nadando até chegar mais perto de onde eu estava.

- Não perguntei se você quer ou não. Apenas lhe ordenei – coloquei um braço para afastá-lo.

- Sabe, se eu quisesse você poderia ser minha agora porque, adivinha o que eu tenho aqui? - tirou um monte de cartas molhadas do bolso de sua camisa branca – O Às de Copas, a carta do amor – um calafrio percorreu minha espinha – Com medo?

- Não, apenas frio. Vire-se, vou sair.

- Não.

- O que?

- Não. Quero testar uma coisa em você – falando isso, agarrou meu braço e me puxou para mais perto de si.

- Me larga.

- Não, já disse. Só vai durar um instante.



- Não quero.

- Prometo que não vai se arrepender.

- Duvido.

- Olhe fixamente para mim – virei minha cabeça para o outro lado – Por que você é tão difícil? - falou e puxou meu queixo com força para si.

- Me solta.

- Você quer me beijar – não foi uma pergunta.

- Não – e não quero mesmo, ele está muito estranho.

- Você quer ficar comigo – aumentou a força de sua mão em meu queixo – E quer agora – seus olhos estavam grudados nos meus, comecei a cair de pouco a pouco dentro deles, nunca havia percebido, mas eles eram dourados, com risquinhos verdes, eram lindos. Só quando minha boca estava à milímetros da sua que consegui, com um puxão, voltar a realidade e de raiva, dar um tapa em sua cara, pelo menos a parte que não estava coberta com a mascara. Ele me largou com surpresa, dando o tempo que eu precisava para sair da água e de sua companhia – Por que fez isso?

- Cretino. Era eu quem deveria perguntar isso, não acha?

- Por que? O que eu fiz?



- Ainda pergunta? - perguntei indignada – Você vai dormir naquele lado da fogueira, se passar o minimo que for para o meu lado... Somete digamos que você nunca mais irá ter filhos ou prazer algum na vida.

- Não entendo essa atitude de tamanha revolta, aquilo foi só um teste, como já havia dito antes, no qual você passou, se deseja saber.

- Não desejo.

- Mesmo assim, eu nunca deixaria as coisas irem longe demais, teria parado a hipnose.

- Pra mim, já estavamos bem perto quando consegui me libertar.

- Você não confia em mim.

- E que motivos teria eu para confiar em você? Me diga pelo menos um.

- Te salvei da prisão.

- Só isso?

- E...

- E?



- Posso afirmar que beijo espetacularmente bem – e lá estava ele de novo, com suas brincadeirinhas.

- Seja como for, você dorme daquele lado – apontei para o lado oposto da fogueira ainda apagada onde eu me encontrava.

- Mas...

- Calado.

Mascarado começou a arrumar a fogueira sozinho, já que eu não fazia a minima ideia de como fazer aquilo, pelo que estou assistindo ele também não. Já cansado de tentar me impressionar desistiu e apenas pegou outra carta do bolso e a jogou no monte de madeira, fazendo-as pegar fogo imediatamente.

- Como você faz isso?

Ele continuou calado.

- Por que está tão quieto? - o silêncio continua – Sabe, eu é que devia ter o direito de estar brava e não você! - como resposta ele apenas pegou um galho e começou a escrever na terra.

“Você me mandou ficar calado”

- ntão descale-se! - sua cabeça se moveu em sinal negativo – Ótimo, continue assim então. Melhor pra mim – deitei de costas pra ele, sujando meu “vestido” branco mais ainda. Pensei que conseguiria passar a noite em claro vigiando o Macscarado, mas quando deitei minha cabeça em minhas mãos o cansaço ganhou e me levou à inconsciência.