segunda-feira, 25 de abril de 2011

Capítulo 21 - 1ª parte

Seguimos bosque a dentro ao lado de uma trilha há muito tempo abandonada. O Sol estava em seu esplendor de meio da tarde fazendo com que nos cansássemos ainda mais rápido do que o previsto. Não sei como Mascarado ainda estava de pé, pois além de carregar seu próprio peso, ainda estava com Adam em seu ombro, ainda desacordado. Logo, logo ele iria acordar e iriamos precisar de uma corda para deixá-lo quieto se preciso. Maravilha, agora estou armando planos para amarrar meu próprio amigo, que bela pessoa virei.

- Sobre aquilo que você fez na cozinha...

- Depois, já disse.

- Depois quando? Quando nos acharem e não termos mais tempo de falarmos nada? É esse o plano?

- Que inteligência magnifica, como você descobriu? Eu disse depois, e depois será. Agora vamos descansar pois está anoitecendo e já pegamos uma boa dianteira deles.

- Fogueira? - perguntei animada.

- Claro que não, ou quer-lhes fazer o favor de dar uma pista de para onde estamos indo?

- Tá bom, não precisa ficar zangado.

Nos sentamos no chão frio ao lado de um grande e bonito carvalho. Colocamos Adam deitado de um lado e fui procurar por alguma coisa que fosse bastante resistente para segurá-lo, enquanto Mascarado ficava vigiando-o e tentava arrumar alguma comida.



Cipó teria de servir, afinal eu não acho que Adam seria forte o suficiente nem para despedaçar uma folha em suas condições, quanto mais um cipó e também se conseguisse, Mascarado já daria um jeito nisso. Mas o que é que estou pensando? Adam é meu melhor amigo, nunca faria algo de mal a ele. Pelo menos acho que não.

- Agata, temo que o seu amiguinho acabou de acordar!

- Já vou! - terminei os ajustes que faltavam e sai correndo na direção em que viera.

Quando cheguei Adam estava se debatendo contra os braços de Mascarado tentando fugir, quando me viu se acalmou um pouco, mas não muito.

- Agata, me ajude! Este cara de mascara não está me deixando sair.

- Ótimo, fique calmo Adam, você está seguro agora, não vai a lugar algum.

- Você está do lado dele?

- Demorou pra perceber... - aquele que adora botar fogo nas coisas falou.

- Cale-se!

- Vamos Agata, me ajude! Eu sou seu amigo ou não?

- É, mas...



- Mas o quê?

- Você não é o mesmo de antes, alguma coisa mudou...

- É esta mascarado que ficou te botando coisas na cabeça não?

- Ele nem te conhece. Eu sim.

- E o que vai fazer agora? Me levar amarrado até onde... Sei lá, e me espancar quando eu quiser fugir?

- Se for preciso sim, mas não desejo isto.

- Se você fizer isso eu nunca te perdoarei, sabe disto não?

- Se estivesse em seu estado normal, essa ameaça poderia até ter feito algum efeito em mim, mas não está, precisa de ajuda – tentei me manter forte por fora, mas a verdade era que estava morrendo de medo. Medo de que tudo continuasse do jeito que está, medo de que eu perdesse mais um amigo.



- Você não pode estar falando sério sua aberração!

- Estou – tentei não ligar muito para o xingamento – Agora olhe em meus olhos – peguei seu queixo em minhas mãos e o virei para meu rosto sem esforço algum. Seus olhos estavam normais e não vidrados ou vermelhos ou qualquer outra coisa como pensei, este era Adam mesmo, não estava enfeitiçado nem nada do tipo, apenas sendo ele mesmo – Mascarado, você pode fazer aquilo com as cartas novamente?

- Claro, quer que eu o mate? - perguntou naturalmente.

- Não! Claro que não! - gritei – Apenas faça com que ele esqueça que nos viu e o mande de volta pra vila ou pra quem quer que o tenha mandado me tirar do calabouço. Pode fazer isso?

- Sim – ele novamente tirou o baralho de seu colete e repetiu o processo que eu já havia visto na cozinha.

Quando Adam foi embora, me encostei na raiz da árvore e fiquei lá parada, apenas respirando até que Mascarado me trouxe uma fruta estranha para comer. Percebi que estava morrendo de fome, devorei-a e mais outras cinco em dois minutos.



Aberração.

A comida subiu a garganta. O momento anterior passou pela minha memória, a minha frieza, sua arrogância. Não aguentei. Tudo que eu havia comido voltou em um segundo, dando só o tempo de virar a cabeça pra baixo. Sinto meus cabelos sendo puxados pra cima enquanto vomito tudo que há em meu corpo. Quando finalmente acabo, Mascarado puxa minha cabeça para seu colo e ali fico até me acalmar, com ele mexendo, ou melhor, embaraçando meu cabelo.