segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CAPÍTULO 19

O bom era que estávamos em celas separadas. O ruim é que ele não conseguia calar a boca. Sabe, estou começando a achar que ele tem sérios probleminhas, nada pessoal, é que o Mascarado está começando a falar consigo mesmo já que eu estou mais respondendo suas perguntas, eu também falo comigo mesma, só que não na presença de outra pessoa, tudo bem, às vezes falo, desisto, eu sou igual a ele neste sentido, buuuá.

Não consigo pensar com clareza, o que será que vai acontecer com minhas asas? Será que elas vãos crescer de novo? Tomara que sim, voar é uma bela maneira de fugir. E já tenho que começar a bolar planos de fuga, como se houvesse algum jeito de conseguir sair daqui, mas não custa nada ter alguma esperança, minima que seja. Mas é duro pensar em tanta coisa quando o companheiro da cela do lado começa a assoviar uma musiquinha fúnebre.

- Dá pra parar de assoviar?

- Por quê?

- Está me incomodando e não consigo me concentrar.

- Se concentrar pra quê? Não tem nada pra fazer aqui mesmo.

- Primeiro, eu não sei o vai acontecer com minhas asas e não sei como fazê-las desaparecer, como sempre faziam antes, acho que dessa vez vou ficar com elas pra sempre, se elas crescerem de novo, o que não vai ser nada rápido e indolor pra mim. Isso me faz lembrar, não está mais assustado por estar conversando com uma garota meio anjinho?

- Não, apesar de você ser diferente do normal, não é aquela coisa incrível – ratinho, ratinho, vem aqui, vem visitar a cara do titio mascarado voando - , raivosa ou carola até os ossos como eu imaginava, e depois de ver três bruxas e uma espécie de demônio na minha frente, uma anjo ó serve pra fecha o pacote de esquisitice. O que você viu de mim lá em cima foi só o choque inicial da coisa.

- O beijo que você me deu também foi só o choque inicial?

- Se fosse isso eu estaria chocado agora, não quer vim aqui pra me acalmar, não?

- Tarado, tenta beijar o rato que você ganha mais.

- O que eu ganharia beijando um rato?

- Não sei, algumas doenças talvez, mas pelo menos não seria a metade do soco que eu iria te dar se você me beijasse agora.

- Você me socaria mesmo? Lá em cima me pareceu que você estava com ideias bem diferentes na cabeça.

- Tarado. Fala logo quem você é!

- Descubra. Qual seria a graça se eu mesmo falasse?

- Pra você nenhuma.

- Então, vamos aproveitar que estamos mesmo com os dias contados neste calabouço.

- Não. A gente não vai morrer, eu vou arranjar um jeito de sairmos daqui.

- Oh magnifica pessoa inteligente, qual é o seu plano?

- Por enquanto nenhum, mas já, já irei pensar em alguma coisa.

- Boa sorte.

- Por que você é tão pessimista?

- Não sou pessimista, apenas realista.

- O que de certo modo faz a pessoa virar pessimista.

- Se pensa assim, quem sou eu para contrariá-la?

- Um garoto mascarado, tarado, sem educação que não quer dizer quem ele é por detrás dessa mascara que nem deu pra mim ver por causa do escuro. Quem sabe de manhãzinha não dê pra mim descobrir.

- Isso magoou e já é de manhã, estamos em um calabouço, aloou? Sem sol.

- Isso mesmo, acaba com as minhas esperanças.

- Vem aqui que eu te consolo.

- Olha que eu taco outro rato!

- Calado.

- O que será que aconteceu com o Adam e o Adrian1? - Adrian 1, foi o primeiro que apareceu pra mim e o que dançou comigo ontem. Adrian 2 é o demonio chato que transformou minha melhor amiga em alguma coisa – Você não é nenhum deles, é?


- Acha mesmo que se fosse, iria te falar?

- Não, mas não custa tentar, né?

- Já pensou no grande plano?

- Ainda não, é muito difícil pensar com alguém te irritando, sabia?

- Não seja por isso.

Depois de três minutos de silêncio, fico quase louca pelo barulho dos roedores ao redor. Mas quando ia pedir para o mascarado começar a cantar novamente, a porta é aberta e escuto passos descendo a escada.



- O que você quer agora? Pensei que sua última visitinha já tinha sido bem esclarecedora – começo a falar.

- Quer calar a boca!

- O que é isso? Onde estão seus modos?

- Eu juro que se você não ficar quieta agora, eu não te solto.

- Me soltar? Quem é?

- Não está reconhecendo minha voz? Assim você me magoa.



- Adam? É você?

- Quem mais estava esperando que fosse? O bobo da corte?

- Como você conseguiu fugir? Onde se escondeu? E como vai tirar a gente daqui?

- Nossa, nem um “Oi amiguinho! Que bom ver que você está vivo e não se sente traído por eu ter guardado um belo segredo de você!”

- Só estou esperando você nos tirar daqui para te esmagar em um abraço, não percebeu? - era verdade.

- Tá bom... Respondendo a sua pergunta, eu fiz o guarda que estava cuidando da porta e, conseqüentemente, das chaves tirar uma sonequinha.

- Você o matou? - perguntei espantada.

- Não seja dramática, só o droguei e o enfiei em uma sala abandonada.



- Drogou com o quê?

- Tinha umas plantas na nossa bolsa.

- E como você sabia quais eram? E qual seu uso? Além do mais, onde você conseguiu a bolsa? Pelo que eu me lembre nós a deixamos no quarto da pensão.

- Quando a luz voltou e você falou pra mim fugir, eu fiz isso e depois voltei. Por que tantas perguntas? Não confia mais em mim?

- Claro que sim, não é isso, é só que fiquei muito tempo presa aqui sendo atormentada pelo mascarado, que acho que acabei paranóica - não sei o que, mas tinha alguma coisa de muito estranho com ele.

- Quem é mascarado?

Ninguém sabe, só um cara que me beijou a força e desde então tem sido meu companheiro de calabouço. A propósito, eu taquei um rato nele, porque ele estava cantando muito alto. Não, isso não vai dar certo.

- Então, quem é ele?

- Deixe que eu mesmo me apresente.



- Quem está aí?

- É o que eu iria explicar se você não tivesse me interrompido. Não posso lhe dizer meu verdadeiro nome por causa desta jovem donzela que estava falando com você, mas posso lhe dizer os vários apelidos que ela já me deu.

- Cala a boca! - falei pra ele.

- Por que? Já está com ciúmes que ele está falando comigo e não com você?

- Você não presta mesmo.

- Não diga! Pois bem, pode me chamar de tarado, mascarado, tarado – misterioso e cavalo, só isso pelo que me lembre.



- Por que tarado?

- Nada não, sabe? É só um apelido carinhoso que eu dei pra ele.

- Porque eu a beijei “a força”, com aspas por favor, já que ela deve ter gostado bastante para começar a retribuir.

- Você à o quê? - Adam começou com a voz um pouco alterada.

- Cretino, convencido!

- Ganhei mais adjetivos. Sorte a minha.



- Será que você pode nos tirar daqui de uma vez Adam?

- Como assim “nos”?

- Você não está pensando em deixá-lo aqui para que seja morto, não é?



- Por que não?

- O que aconteceu com você? Está tão estranho.

- O que quer dizer com isso?

- Meu verdadeiro amigo Adam poderia ser tudo, irritante, chato, legal, bonito, mas nunca, jamais foi tão frio ao ponto de deixar uma pessoa morrer por um capricho.

- Bem, parece que você não me conhece.

- Também acho.



- Ótimo, então que tal você ficar aqui esperando com seu tarado até que eu mude de ideia e volte para te libertar? - e com isso ouvi seus passos se afastando, ouvi também o barulho enferrujado de uma cela sendo aberta e depois o baque de um corpo no chão.

- Tarde demais gracinha.

- O que você fez?

- Soquei seu amigo.

- Como saiu da cela em primeiro lugar?

- Enquanto ele estava muito ocupado declarando seu amor por você, eu simplesmente me aproximei e peguei a chave em seu bolso. O idiota nem percebeu.

- Você é um ladrão, ótimo, quando eu consigo descobrir alguma coisa sobre você, descubro que é um ladrão, muito bom.

- Não fique assim, eu sou bonzinho.



- Acredito, agora será que dá pra me tirar daqui?

- A tranca foi aberta e eu fui libertada.

- Vamos antes que percebam nossa fuga.

- Claro, você o carrega?

- Carregar quem?

- O Adam ora essa! Eu não vou deixá-lo aqui, pode esquecer.

- Mas ele ia me deixar aqui para morrer, por que não posso fazer o mesmo com ele?

- Porque estou mandando. Agora vamos, carregue logo.

- Algum dia você ainda vai se arrepender disto.

- Talvez, mas enquanto este dia não chega, que tal andar mais depressa?


Um comentário: