segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Capítulo 23

Meia hora após sermos pegos e eu já não aguentava mais ficar na companhia de Adrian. Estou seriamente começando a considerar de que existe um tipo de TPM especial para príncipes demônios.

Mascarado não falara nada neste tempo todo, estava preocupantemente quieto, como eu nunca o havia visto antes, bem, não posso julgá-lo, é normal ter um pouco de medo quando te capturam após você ter escapado de um calabouço, sendo que você estava trancafiado em celas, e agora que elas provaram ser inúteis a nosso charme teriam a obrigação de nos prender em algo pior, mais perigoso. Viu? Nada a temer.

Tropeçávamos entre galhos e pedras, a caminhada ficava cada vez mais difícil, mas a parte preocupante estava longe de ser essa. Não estávamos indo de volta ao castelo. Estávamos nos afastando ainda mais. O medo começava pouco a pouco tomar espaço em minha mente, medo de não saber para onde estava indo, medo por não saber o que iriam fazer conosco quando chegássemos lá.

Para deixar tudo melhor, o tempo estava piorando, ventos fortes jogavam meus cabelos em meu rosto como chicotes, as roupas esvoaçavam que nem loucas, uma tempestade estava para chegar. Tamanho era o vento forte, que de minhas novas asas, às vezes, caiam algumas de suas penas. Queria poder fazer aquele negócio de sumi-las outra vez, seria bem útil neste momento.

- Acho que uma tempestade está chegando – Adrian, para a salvação do mundo, descobriu o óbvio.

- Nossa, se você não tivesse falado, nem teria percebido – sei que deveria manter minha boca fechada, mas não consegui, não podia perder uma chance dessas.

- Viu? Até você concorda comigo.

Estava preparada para dar uma resposta afiada, por que sério, como ele não percebeu todo o sarcasmo e veneno que eu havia lançado naquela frase? Mas antes disso, percebo que alguém está olhando afiadamente minhas costas, como se pudesse me bater. Não é muito difícil descobrir de quem seria este olhar. Na verdade tenho certeza de quem é. A única, ou uma das únicas, pessoas ali que teriam coragem de olhar detravessado um anjo, ou meio anjo se for muito exigente. Calei a boca do mesmo jeito, não iria nos botar em mais problemas pela minha boca grande.

Continuei calada enquanto nos dirigíamos ao desconhecido, dando respostas mentalmente mortais a cada comentário idiota que o príncipe demônio fazia. Como uma pessoa podia ser tão egocêntrica? E como uma pessoa, lê se eu, podia já ter ao menos gostado de tal pessoa? Mistério e mais mistério...

- Estamos chegando – fala um dos guardas.

Ao longe, já era possível ver uma casinha de palha mas, será que era aquele lugar?Se fosse ficaria mais que feliz em ficar ali, contato que estivesse livre de amarras e bem alimentada. O que certamente não iria acontecer.

- Não criem muitas esperanças, aquela casinha não é nada do que parece ser – muito obrigada guardinha.

Mas a chuva, infelizmente, não esperou nossa chegada. Ela começou fina, fraquinha ainda, como se nos testando, após um momento depois, um tremendo temporal caiu em cima de nós, nos encharcando completamente. A água não deu trégua. Não havia lugar algum que nos servisse de abrigo no meio de todas aquelas árvores. Tropecei em um galho caído e quase cai em meio a lama no chão antes que Mascarado conseguisse me segurar.

- Tome mais cuidado.

- Fácil falar.

Trovões começaram a soar no céu acima. A cabana estava cada vez mais perto. Não sei o que seria pior, ficar na perigosa tempestade ou entrar naquele, aparentemente, pacífico lugar.

A chuva forte começou a cair. Andamos mais rápido, minhas asas me encharcavam e me puxavam junto ao vento, percebendo que, logo eu poderia fugir, tendo a intenção ou não, Adrian mandou dois guardas ao meu lado.

- Não consigo... Andar – a rajada de vento era forte sob minhas asas já pesadas pela água da chuva. Os dois guardas não ajudavam muita coisa, eram apenas humanos.

- Recolha suas asas. Afinal, por que ainda está com elas assim?

- Abaixei minha cabeça e continuei lutando contra o poder do vento.

- Te fiz uma pergunta – chegou perto de mim e agarrou meu cabelo – Responda.

Continuei quieta.

- Ela não sabe como – Mascarado fala.

- O quê?

- Ela ainda não tem controle sobre si mesma.

- Ótimo, um anjo que não tem controle de suas asas. Perfeito.

Meia anjo.

- Nem de sua boca.

- Uma coisa que estou completamente de acordo – Mascarado concorda.

Que amor, nem conseguiria imaginar que Mascarado concordaria com Adrian em alguma coisa, mas aqui estou eu, a ligação entre os dois.

Chegamos a cabana totalmente encharcados. Por dentro, parecia totalmente indefesa como era por fora. Alguma coisa não estava certa.

- Sério? Este será o nosso temível cativeiro?

- Cale-se – sussurrou Mascarado.

- E é aí que você se engana. Agora tudo isto parece bastante confortável e inofensivo, não? - sem esperar resposta, continua – Mas não é. Sigam me, por favor.

- Como se tivéssemos alguma escolha – murmurei, recebendo uma cotovelada.

- Nenhuma escolha? Ora essa, que acusação mais falsa. O que não lhe faltara em toda esta história foram escolhas, e exatamente por elas mesmas você veio parar aqui. Não é culpa minha que você se meteu no meu caminho, ou talvez posso ter ajudado um pouco nisso, mas daí em diante os acontecimentos foram guiados pelas suas escolhas. Acho que vendo deste lado da história, não sou eu quem deveria ser o vilão.

Não havia tempo para pensar sobre isto, mais tarde me preocuparia com isso. Guardas nos empurravam mais fundo na cabana até acharmos um pequena escada que levava ao subterrâneo. Em nossa caminhada, tentei gravar cada detalhe da cabana, caso precisássemos disso em uma chance para fuga. Descemos as escadas até um grande porão, mais parecido com uma sala de tortura subterrânea.

Jogando me ao chão sem nenhuma gentileza, agarraram meus pulsos e minhas canelas para me imobilizar, mas não precisavam se preocupar com isso. Sabia que agora não poderia fugir, não haveria nenhuma chance de sobreviver, a hora chegaria, mas não seria agora.

Aproveitando minha resignada colaboração, prendem algemas, vindas com um barulho ensurdecedor de suas colocações na parede, em meus pulsos e canelas. É um ferro diferente, mais pesado e quando encostado em minha pele, queima, arde.

Loucura toma conta de mim, começo a me debater e tentar quebrar e puxar tais algemas para fora de mim, apenas causando ainda mais ferimentos em meu corpo e em meus ouvidos, pelos barulhos das correntes, grito de raiva, mas não posso fazer mais nada, Adrian estava certo, tudo isto só aconteceu por minha causa, mas não vou ficar depressiva e me deixar levar pela dor da culpa, não, vou achar um jeito de sair dessa.

Paro de me debater para pensar claramente, quanto mais imóvel fico, menos dor causo a mim mesma.
Ergo a cabeça, só para encontrar Mascarado me olhando sem nenhuma emoção aparente por cima daquela máscara, com Adrian sussurrando alguma coisa em seu ouvido, não parecendo nada feliz. Percebendo que meu ataque já acabou, se vira para mim, ao mesmo tempo em que joga Mascarado ao meu lado no chão, a mesma coisa é feita com ele, que ao contrário de mim, não parece ter nenhuma rejeição ou alergia por suas algemas.

Olho confusa para Adrian.

- Metal hadjar.

- Ainda não entendi.

- Baltazar, você deveria manter nossa pequena anjinha aqui informada – diz olhando para Mascarado. Não Mascarado, Baltazar. Enfim descobri seu verdadeiro nome, posso dizer que não foi como imaginei – Hadjar, é um tipo de metal temível para os anjos, ainda mais para metades como você, que não tem todo o incrível e angelical poder curativo ou qualquer coisa assim dos verdadeiros.

- Por quê?

- Pergunte a Baltazar, ele sabe sobre tudo ainda melhor do que eu. Divirtam-se! - fala o mesmo tempo em que sobe escada acima para a superfície.

- Desgraçado – Masc... Baltazar resmunga.

- Desgraçado? Olha quem fala, fingindo me ajudar a escapar e olhe agora, parece que você e meu captor são amigos tão íntimos – olho para o outro lado e o mando calar a boca quando tenta se explicar, um sentimento de traição começa a me corroer por dentro.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Capítulo 22

Acordei com uma respiração pesada em meu rosto, abro os olhos e a primeira coisa que vejo é a boca de Mascarado.

- Mas que mer... - ele ainda estava dormindo, me afastei um pouco e olhei pra cima, sua mascara estava um pouco frouxa, uma ideia me ocorreu. Levantei meu braço devagarmente, tentando não fazer nenhum movimento brusco e acordá-lo, minhas mãos estavam quase puxando o laço detrás de sua cabeça que prendia a mascara em seu rosto quando um passarinho passou cantando, puxei meu braço o mais rápido possível, mas não o bastante pelo visto, já que ele o agarrou e o segurou junto ao seu peito. Mascarado idiota, sempre tinha que complicar tudo. Esperei mais uns minutinhos e quando ouvi sua respiração calma e relaxada de sono, tentei novamente. Mas o meu outro braço estava embaixo de meu corpo, não tinha como tirá-lo de lá sem que o ser acordasse. Mas se eu fosse rápida o suficiente, quem sabe não podia ter um vislumbre rápido?

O mais rápido que eu consegui, tirei meu braço de debaixo de meu corpo e puxei a fita de sua mascara.



Minha alegria durou pouco e um sentimento de medo me pegou logo depois já que minha mão ainda continuava lá, segurando a fita, junto da de Mascarado.

- Veja só o que temos aqui, parece que alguém estava tentando fazer uma coisa errada, muito errada – seu aperto em minha mão ficava mais forte a cada fala – Depois sou eu que não mereço confiança.

- Culpa sua, se tivesse me ouvido e dormido daquele lado, nada disso teria acontecido.

- Tem mesmo certeza? Pois eu não teria tanta confiança em si mesma. Acho que a anjinha deve ser punida por tentar fazer algo assim.

- O que quer dizer com isso? - perguntei arregalando meus olhos.

- Já, já você irá descobrir...

- Isso não tem graça.

- E quem disse que era pra ter?

- Você está me assustando.

- Melhor ainda.



- Pare já com isso.

- O que você irá fazer se eu continuar? Me esmagar com a sua chatice.

- Eu pensaria em alguma coisa. Na hora. Improvisaria.

- Apesar de haver várias possibilidades, não vejo nenhuma em que você se saia vitoriosa.

- Você é vidente agora por acaso?

- Também, mas não utilizaria esse nome para me descrever.

- E qual seria?

- Maravilhoso, lindo, espetacular...

- Se a sua autoestima é assim tão alta, por que não tira essa mascara e me mostra como você é realmente bonito, pois, vou confessar, já estou começando a duvidar desta divindade toda.

Ele chegou mais perto de mim e sussurrou em minha orelha.

- Não existe apenas a beleza física, Agata. Lembre-se disso posteriormente.

- Tudo bem oráculo da sorte. Vamos? - ele balançou a cabeça discordando – Por quê?



- Ainda temos assuntos a tratar, não pense que esse papinho furado me fez esquecer – sua mão passou pela minha cintura e me puxou forte junto a si. Fechei meus olhos com sua proximidade, podia sentir sua respiração em meus lábios e como se outra pessoa estivesse no comando de meus gestos eles se abriram. Esperei vários segundos e quando nada aconteceu, abro os olhos e vejo Mascarado me encarando, seus olhos eram amarelos.

- Por que está rindo?

- Pela sua cara, ia mesmo me beijar? - perguntou rindo.

- Claro que não – minha cara foi enrubescendo – Idiota, nunca faria isso. Nunca – gritei dando tapas em seu peito.

- Ah, caramba, você ia mesmo me beijar- ele disse para me deixar ainda mais constrangida – Se soubesse disso não teria deixado essa chance passar.

- Idiota, eu nunca teria deixado!

- Não é o que está parecendo – me puxou de volta.

- Me solta!

- Só depois de terminarmos o que começamos.



- Nun... - seus lábios estavam nos meus antes mesmo de eu terminar de falar. Ele pensou mesmo que eu era tão fácil assim? Ele acha mesmo que depois de me constranger eu iria correndo pular no braços dele. Idiota. Mordi seu lábio com toda força, mas infelizmente fui interpretada de maneira errada. Seus lábios passaram de minha boca para meu pescoço.

- Sabia que você era uma das mais selvagens.

- Me larga, eu não quero isso.

- Duvido – seus lábios voltaram e não importa o quão forte eu o empurrava, ele sempre resistia. Tentei chutá-lo novamente, mas com isso ele pegou minha perna e a passou pela sua cintura. Em pouco tempo eu já estava encostada numa árvore, ou sendo empurrada contra ela, não mais resistindo. Acho que no final das contas, ele estava certo. Minha mão, não mais empurrando e sim puxando-o mais perto, se apertava em torno de sua nuca.

- Agaaaaata. Onde você essstá? - uma voz fina e conhecida chegou até nós.

Nos olhamos e congelamos ao mesmo tempo. Será que se ficássemos quietos ela iria embora e nos deixaria? Pouco provável eu sei, mas se ficássemos bem quietos...

- Posso sentir seu cheiro minha querida, nem tente se esconder ou fugir, irei achar te achar de qualquer modo.



Sai de cima de Mascarado muito calmamente, tentando fazer o minimo de barulho possível. Juntos começamos a caminhar para o lado oposto da voz de Monique. Mas como sempre, consegui por tudo a perder quando pisei em um galho quebrado.

- Como sempre tão desengonçada, não Agata? - sua voz estava chegando mais perto muito rápido então, sem nenhuma outra alternativa aparente, começamos a correr.
Enquanto dava o máximo de mim para despistá-la, uma mão agarrou meu pé.

- Desta vez não terá tanta sorte – Monique estava deitada na terra enquanto apertava e arranhava meu tornozelo.

- Você que pensa vadia – com isso dei um chute em seu rosto e sai correndo o mais rápido possível, mandando Mascarado não me esperar e ir mais rápido também.



Mas como já podíamos prever, Adrian e seus guardas nos esperavam do outro lado, acabando com nossa chance de fuga, se é que já existiu alguma.

- Pensando em fugir?

- Claro que não. Nós só estávamos correndo de vocês todos com o propósito de brincar de pega-pega - fiz cara de bosta, o que não é muito difícil, com toda minha prática.

- Não é hora para sarcasmos – Mascarado resmungou.

- Seu amiguinho está certo, Agata. Se não quiser acabar em um calabouço novamente é melhor agir como a dama que você não é.

- Ótimo, que se dane. Eu sei que mesmo se eu ser a dama que nunca fui ou serei vocês vão nos por em lugares piores ainda. Então, pra que me preocupar?

- Pra que se preocupar, você me pergunta. Bem, se você não seguir minhas regras e ficar de boca fechada pelo menos a maioria do caminho, não terá mais que se preocupar com isso.

- É uma ameaça?

- Sim, e é melhor você começar a levá-la a sério para o seu próprio bem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Capítulo 21 - 2ª parte

Engasgo e me jogo na terra, me enlameando totalmente no processo. Parece que algum gancho está puxando a pele de minhas costas para fora. Meu desespero é tanto que acabo arranhando meu rosto. A lama fria não faz efeito à queimação que agora está em minhas costas. Não consigo gritar, ou assim penso já que não consigo nem raciocinar direito. A dor dura não mais que alguns minutos depois e tão rápido quanto veio, ela parou. Fiquei um momento parada, tentando me acalmar. Mascarado olhava pra mim com cara de espanto e aos poucos suas feições foram mudadas, até ficarem maravilhadas.

- O que foi?

- Suas asas.

Tentei olhar para as minhas costas, mas como isto era impossível, me contentei com o passar de minhas mãos em suas tão macias e adoráveis penas. Mas, logo depois lembrei do estado em que me encontrava, a parte de trás de meu vestido havia rasgado para poder dar lugar as asas em minhas costas, a parte de baixo também não estava muito melhor, já que a lama havia impregnado tudo.
Preciso de roupas novas.

- E de um banho – ele completa para aumentar minha desgraça.

- Você também não está muito limpinho.

- Mas você ganha de mim – disso eu não podia discordar.

- O que eu faço?

- Deve ter algum lago ou algo do tipo se a gente entrar mais pra dentro da floresta.

- Mas isto iria nos atrasar, certo?

- Certo, mas também iria nos despistar, já que seus gritos acabaram com nossas chances de passarmos despercebidos – então eu gritei, bom saber.

- Rumo ao laguinho!!

- O quê?

- Nada, vamos.

Mascarado liderou o caminho. Fez sua mágica e, ao que parece, as cartas lhe mostraram o caminho certo a percorrer. Ele disse que foi por isso que também sabia a saída do castelo, havia feito a mesma coisa antes de ser capturado por Aurora.



Cerca de duas ou três horas depois, enfim, encontramos o lago. Minhas pernas já não mais aguentavam meu próprio peso e me deixei cair na terra, meu vestido já estava acabado mesmo. A água brilhava verde - azulado me convidando a entrar lá dentro.

- Mascarado, vá arrumar alguma coisa para passar seu tempo longe daqui.

- Por que?

- Porque eu vou entrar.

- E por que eu não posso?

- Porque você é um cavalheiro e vendo como meu estado está muito pior que o seu irá me deixar ir primeiro.

- Tudo bem, mas só porque seu estado é realmente decadente.

- Idiota.

Quando não consigo mais ouvir seus passos começo a me despir, uma coisa muito fácil e rápida já que minha vestimenta está completamente rasgada. Sinto as águas com meu pé, gelada. Mas, se eu entrar de uma vez não vou sentir tanto, né? Pelo menos minha mãe sempre disse isso, uma pena que eu nunca escutei ela. Enquanto a Lua se erguia mais e mais e o clima começava a esfriar, ouço passos vindos em minha direção, bom, é agora ou nunca. Pulo e sinto o frio das águas entrar em contato com minha pele. Minha mãe aparentemente estava errada, ainda continuo com frio.



- Já acabou?

- Claro que não. Acabei de entrar. Agora trate de sair daqui!

- Mas está escurecendo e eu já aproveitei e trouxe alguns pedaços de madeira para fazer uma fogueira.

- Não foi você que brigou comigo por dar a ideia de fazer uma?

- É, eu sei, me desculpe, mas o frio ganhou e estamos bem no meio da mata, duvido que eles consigam nos ver.

- Tudo bem, agora saia daqui.

- Não. Eu estava pensando, o que você vai vestir?

- Bem, o vestido pode ter ficado realmente arruinado, mas a roupa de baixo, que pra mim mais parece uma camisola, está bem conservada e eu estava pensando se alguém não seria educado o suficiente para me dar seu paletó.

- Está falando de mim?

- Está vendo mais alguém por aqui?

- Sabe, eu nunca vi uma donzela tão simpática e gentil como você.

- Que bom saber.

Mascarado começa a desabotoar o paletó, só que para meu completo constrangimento, não para por aí. Quando percebo que ele vai tirar toda a roupa, me viro de costas, tentando fazer com que a vermelhidão quente de meu rosto saia com o ar frio da noite.



- O que você está fazendo?

- O que parece?

- Só sei de uma coisa, você não vai entrar aqui.

Ele para um instante, parecendo ter escutado algo, inclina sua cabeça para direita, vai direto até nossas roupas e as joga atrás de uma moita e corre o mais rápido possível pra dentro d'água.

- Isso não é mais uma opção.

- O que foi? - sem se dar ao trabalho de responder, ele apenas põe o dedo indicar em seus lábios e sinaliza pra mim preder o folego. Mal deu tempo de fazer o que ele disse que este já me puxa pra baixo d'água junto consigo.

Olho para cima e vejo cavalos chegando até onde pouco segundos antes ele estava.

- Pensei ter ouvido alguma coisa por aqui. Mas deve ter sido somente o vento nos enganando mais uma vez - um dos guardas fala.

- É. Vamos voltar logo antes que o príncipe se irrite com nossa demora.

- Claro – ficamos debaixo d'água um pouco mais, só para o caso de eles ainda estarem lá.

Não aguentando mais a falta de ar, sou a primeira a emergir sobre as águas profundas e escuras.



Não aguentando mais a falta de ar, sou a primeira a emergir sobre as águas profundas e escuras. Mascarado veio logo atrás.

- Fique longe – avisei.

- E se eu não quiser? - foi nadando até chegar mais perto de onde eu estava.

- Não perguntei se você quer ou não. Apenas lhe ordenei – coloquei um braço para afastá-lo.

- Sabe, se eu quisesse você poderia ser minha agora porque, adivinha o que eu tenho aqui? - tirou um monte de cartas molhadas do bolso de sua camisa branca – O Às de Copas, a carta do amor – um calafrio percorreu minha espinha – Com medo?

- Não, apenas frio. Vire-se, vou sair.

- Não.

- O que?

- Não. Quero testar uma coisa em você – falando isso, agarrou meu braço e me puxou para mais perto de si.

- Me larga.

- Não, já disse. Só vai durar um instante.



- Não quero.

- Prometo que não vai se arrepender.

- Duvido.

- Olhe fixamente para mim – virei minha cabeça para o outro lado – Por que você é tão difícil? - falou e puxou meu queixo com força para si.

- Me solta.

- Você quer me beijar – não foi uma pergunta.

- Não – e não quero mesmo, ele está muito estranho.

- Você quer ficar comigo – aumentou a força de sua mão em meu queixo – E quer agora – seus olhos estavam grudados nos meus, comecei a cair de pouco a pouco dentro deles, nunca havia percebido, mas eles eram dourados, com risquinhos verdes, eram lindos. Só quando minha boca estava à milímetros da sua que consegui, com um puxão, voltar a realidade e de raiva, dar um tapa em sua cara, pelo menos a parte que não estava coberta com a mascara. Ele me largou com surpresa, dando o tempo que eu precisava para sair da água e de sua companhia – Por que fez isso?

- Cretino. Era eu quem deveria perguntar isso, não acha?

- Por que? O que eu fiz?



- Ainda pergunta? - perguntei indignada – Você vai dormir naquele lado da fogueira, se passar o minimo que for para o meu lado... Somete digamos que você nunca mais irá ter filhos ou prazer algum na vida.

- Não entendo essa atitude de tamanha revolta, aquilo foi só um teste, como já havia dito antes, no qual você passou, se deseja saber.

- Não desejo.

- Mesmo assim, eu nunca deixaria as coisas irem longe demais, teria parado a hipnose.

- Pra mim, já estavamos bem perto quando consegui me libertar.

- Você não confia em mim.

- E que motivos teria eu para confiar em você? Me diga pelo menos um.

- Te salvei da prisão.

- Só isso?

- E...

- E?



- Posso afirmar que beijo espetacularmente bem – e lá estava ele de novo, com suas brincadeirinhas.

- Seja como for, você dorme daquele lado – apontei para o lado oposto da fogueira ainda apagada onde eu me encontrava.

- Mas...

- Calado.

Mascarado começou a arrumar a fogueira sozinho, já que eu não fazia a minima ideia de como fazer aquilo, pelo que estou assistindo ele também não. Já cansado de tentar me impressionar desistiu e apenas pegou outra carta do bolso e a jogou no monte de madeira, fazendo-as pegar fogo imediatamente.

- Como você faz isso?

Ele continuou calado.

- Por que está tão quieto? - o silêncio continua – Sabe, eu é que devia ter o direito de estar brava e não você! - como resposta ele apenas pegou um galho e começou a escrever na terra.

“Você me mandou ficar calado”

- ntão descale-se! - sua cabeça se moveu em sinal negativo – Ótimo, continue assim então. Melhor pra mim – deitei de costas pra ele, sujando meu “vestido” branco mais ainda. Pensei que conseguiria passar a noite em claro vigiando o Macscarado, mas quando deitei minha cabeça em minhas mãos o cansaço ganhou e me levou à inconsciência.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Capítulo 21 - 1ª parte

Seguimos bosque a dentro ao lado de uma trilha há muito tempo abandonada. O Sol estava em seu esplendor de meio da tarde fazendo com que nos cansássemos ainda mais rápido do que o previsto. Não sei como Mascarado ainda estava de pé, pois além de carregar seu próprio peso, ainda estava com Adam em seu ombro, ainda desacordado. Logo, logo ele iria acordar e iriamos precisar de uma corda para deixá-lo quieto se preciso. Maravilha, agora estou armando planos para amarrar meu próprio amigo, que bela pessoa virei.

- Sobre aquilo que você fez na cozinha...

- Depois, já disse.

- Depois quando? Quando nos acharem e não termos mais tempo de falarmos nada? É esse o plano?

- Que inteligência magnifica, como você descobriu? Eu disse depois, e depois será. Agora vamos descansar pois está anoitecendo e já pegamos uma boa dianteira deles.

- Fogueira? - perguntei animada.

- Claro que não, ou quer-lhes fazer o favor de dar uma pista de para onde estamos indo?

- Tá bom, não precisa ficar zangado.

Nos sentamos no chão frio ao lado de um grande e bonito carvalho. Colocamos Adam deitado de um lado e fui procurar por alguma coisa que fosse bastante resistente para segurá-lo, enquanto Mascarado ficava vigiando-o e tentava arrumar alguma comida.



Cipó teria de servir, afinal eu não acho que Adam seria forte o suficiente nem para despedaçar uma folha em suas condições, quanto mais um cipó e também se conseguisse, Mascarado já daria um jeito nisso. Mas o que é que estou pensando? Adam é meu melhor amigo, nunca faria algo de mal a ele. Pelo menos acho que não.

- Agata, temo que o seu amiguinho acabou de acordar!

- Já vou! - terminei os ajustes que faltavam e sai correndo na direção em que viera.

Quando cheguei Adam estava se debatendo contra os braços de Mascarado tentando fugir, quando me viu se acalmou um pouco, mas não muito.

- Agata, me ajude! Este cara de mascara não está me deixando sair.

- Ótimo, fique calmo Adam, você está seguro agora, não vai a lugar algum.

- Você está do lado dele?

- Demorou pra perceber... - aquele que adora botar fogo nas coisas falou.

- Cale-se!

- Vamos Agata, me ajude! Eu sou seu amigo ou não?

- É, mas...



- Mas o quê?

- Você não é o mesmo de antes, alguma coisa mudou...

- É esta mascarado que ficou te botando coisas na cabeça não?

- Ele nem te conhece. Eu sim.

- E o que vai fazer agora? Me levar amarrado até onde... Sei lá, e me espancar quando eu quiser fugir?

- Se for preciso sim, mas não desejo isto.

- Se você fizer isso eu nunca te perdoarei, sabe disto não?

- Se estivesse em seu estado normal, essa ameaça poderia até ter feito algum efeito em mim, mas não está, precisa de ajuda – tentei me manter forte por fora, mas a verdade era que estava morrendo de medo. Medo de que tudo continuasse do jeito que está, medo de que eu perdesse mais um amigo.



- Você não pode estar falando sério sua aberração!

- Estou – tentei não ligar muito para o xingamento – Agora olhe em meus olhos – peguei seu queixo em minhas mãos e o virei para meu rosto sem esforço algum. Seus olhos estavam normais e não vidrados ou vermelhos ou qualquer outra coisa como pensei, este era Adam mesmo, não estava enfeitiçado nem nada do tipo, apenas sendo ele mesmo – Mascarado, você pode fazer aquilo com as cartas novamente?

- Claro, quer que eu o mate? - perguntou naturalmente.

- Não! Claro que não! - gritei – Apenas faça com que ele esqueça que nos viu e o mande de volta pra vila ou pra quem quer que o tenha mandado me tirar do calabouço. Pode fazer isso?

- Sim – ele novamente tirou o baralho de seu colete e repetiu o processo que eu já havia visto na cozinha.

Quando Adam foi embora, me encostei na raiz da árvore e fiquei lá parada, apenas respirando até que Mascarado me trouxe uma fruta estranha para comer. Percebi que estava morrendo de fome, devorei-a e mais outras cinco em dois minutos.



Aberração.

A comida subiu a garganta. O momento anterior passou pela minha memória, a minha frieza, sua arrogância. Não aguentei. Tudo que eu havia comido voltou em um segundo, dando só o tempo de virar a cabeça pra baixo. Sinto meus cabelos sendo puxados pra cima enquanto vomito tudo que há em meu corpo. Quando finalmente acabo, Mascarado puxa minha cabeça para seu colo e ali fico até me acalmar, com ele mexendo, ou melhor, embaraçando meu cabelo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Capítulo 20

- Desculpe me por quebrar este horrível silêncio, mas como você acha que pode nos tirar daqui sem que as bruxas nos percebam?

- E eu que vou saber? Já te tirei de lá, que tal me ajudar um pouquinho com o plano?

- Que plano?

- Nenhum, só modo de falar mesmo.

- Ok... Eu fiquei hospedada aqui por metade de um dia, acho que consigo lembrar de uma saída pelos fundos, não?

- Que tal por aquele lado – apontou para um corredor vazio.

- Seria conveniente demais você saber onde fica a saída sem nem pensar muito, como se já tivesse morado aqui, né?

- Tire as conclusões que quiser, não vou me defender nem revidar, mas prefere ficar aqui pensando em teorias ou sair deste inferno?



- A segunda opção é mais que bem-vinda.

- Ótimo, porque não sei se você sabe, mas seu amiguinho aqui é bem pesado.

Seguimos na direção indicada e fomos parar em uma antiga cozinha, com forno a lenha e tudo mais. Mas o mais incrível de tudo era que ela estava abandonada.

- Ah não, agora você vai me dizer que foi por pura sorte que encontramos justamente a cozinha abandonada com saída pelos fundos, não é?

- E por que não? - falou abaixando cada vez mais o volume de voz – Será que senhorita poderia fazer o favor de abaixar o tom de voz?

- Claro, mas lá fora você não vai me escapar, está me ouvindo? - ouço passos vindos em nossa direção.

- Tem alguém aí? - mascarado põe o dedo indicador os lábios sinalizando para mim fazer silêncio, como se eu fosse idiota o suficiente para começar a gritar em um momento tão tenso como este.



Fomos seguindo em direção a saída, o mais rápido e sem provocar nenhum barulho possível, mas sempre quando as coisas estão ruins tem que haver alguma que pode piorar ainda mais e desta vez não foi exceção, mesmo que sem querer bati meu braço em uma panela, que por sua vez bateu nos talheres, que deslizaram todos ao chão, fazendo todo o barulho existente.

- Merda! - lanço um olhar culpado para o mascarado.

- Quem está aí? Se apresente logo ou irei correndo chamar os guardas!

O Mascarado apenas lança um olhar cansado pra mim por baixo da máscara, joga Adam no chão, causando mais barulho ainda e começa a andar na direção da empregada que nos interceptou, enquanto fazia isto estava tirando alguma coisa escondida por trás de seu colete. Um baralho de cartas.



- Um prisioneiro! - falou a empregada com voz esganiçada – Não me mate por favor! - pegou uma frigideira.

- Calada! - no momento em que a palavra foi dita a velha senhora ficou imediatamente muda – Agora preste muita atenção no que vou lhe dizer, está pequena carta, o Rei de Espadas, me dá o poder de matá-la ou deixá-la viver, ou mais perverso ainda de matar alguém muito querido para você – enquanto ameaçava a velhinha ele dava devagarmente voltas em torno dela, em sua mão o Rei de Espadas girava e era manipulado por ele, fazendo com que criasse a ilusão de que a carta estava voando, pelo menos eu esperava que fosse ilusão – Você vai voltar de onde tenha vindo e lhes dizer que era apenas um rato causando baderna na cozinha, não é?

- Sim mestre – a senhora agora estava completamente hipnotizada, com direito aos olhos vidrados e tudo mais.

- E se não seguir exatamente estas instruções o que irá acontecer?



- O senhor irá me matar e também meu querido marido.

- Isso mesmo, agora largue esta frigideira e vá, como se nada tivesse acontecido – a mulher seguiu suas ordens e pouco tempo depois estávamos novamente sozinhos.

Ele guardou a carta e puxou Adam para seu ombro novamente. Quando eu estava prestes a pedir uma explicação ele me interrompeu.

- Depois – me lançou um olhar que fez meus ossos gelarem. Tudo bem, sem explicações.

Por enquanto, pelo menos.



Lançamo-nos numa corrida de lerdos enquanto fugíamos do, nosso não mais, quartel general.

- Alguma ideia de para onde ir agora?

- Talvez eu tenha pensado em alguma coisa enquanto estávamos trancafiados.

- Talvez? - ele me pergunta preocupado.

- Sim, pois não sei exatamente como ir para lá.

- Não é na vila, é?

- Claro que não, eu não seria tão boba.

- Nunca se sabe.



- Ora, cale-se e me deixe pensar, nós temos que ir para uma gruta, lá está o que precisamos para entender mais sobre tudo isto, pelo menos eu preciso. Só há alguns problemas.

- Quais?

- Não sei sua localização ao certo, apenas que temos de seguir pelo bosque para achá-la. É muito longe, tanto que dá primeira vez, demorei alumas horas para ir até lá acompanhada de uma pessoa e, pode ser que essa mesma pessoa que me levou até este lugar esteja se escondendo lá.

- Por que temos mesmo que ir pra lá?

- Porque assim encontraremos um livro precioso que poderá nos dar as respostas de todas as nossas perguntas.



- Só isso?

- Apenas isso e claro você carregará Adam até ele acordar por todo o caminho.

- Bom pra mim.

Claro, afinal, apenas irei viajar dias em um bosque com uma pessoa que se recusa a me deixar a ver seu rosto, já me agarrou a força e consegue impor sua vontade, fazendo as outras pessoas fazerem sua vontade apenas manipulando cartas. Mas vejamos pelo lado bom, nesta viajem irei aprender mais sobre ele. Pelo menos, assim é o plano.

Agora me digam, como é que fui parar aqui mesmo?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CAPÍTULO 19

O bom era que estávamos em celas separadas. O ruim é que ele não conseguia calar a boca. Sabe, estou começando a achar que ele tem sérios probleminhas, nada pessoal, é que o Mascarado está começando a falar consigo mesmo já que eu estou mais respondendo suas perguntas, eu também falo comigo mesma, só que não na presença de outra pessoa, tudo bem, às vezes falo, desisto, eu sou igual a ele neste sentido, buuuá.

Não consigo pensar com clareza, o que será que vai acontecer com minhas asas? Será que elas vãos crescer de novo? Tomara que sim, voar é uma bela maneira de fugir. E já tenho que começar a bolar planos de fuga, como se houvesse algum jeito de conseguir sair daqui, mas não custa nada ter alguma esperança, minima que seja. Mas é duro pensar em tanta coisa quando o companheiro da cela do lado começa a assoviar uma musiquinha fúnebre.

- Dá pra parar de assoviar?

- Por quê?

- Está me incomodando e não consigo me concentrar.

- Se concentrar pra quê? Não tem nada pra fazer aqui mesmo.

- Primeiro, eu não sei o vai acontecer com minhas asas e não sei como fazê-las desaparecer, como sempre faziam antes, acho que dessa vez vou ficar com elas pra sempre, se elas crescerem de novo, o que não vai ser nada rápido e indolor pra mim. Isso me faz lembrar, não está mais assustado por estar conversando com uma garota meio anjinho?

- Não, apesar de você ser diferente do normal, não é aquela coisa incrível – ratinho, ratinho, vem aqui, vem visitar a cara do titio mascarado voando - , raivosa ou carola até os ossos como eu imaginava, e depois de ver três bruxas e uma espécie de demônio na minha frente, uma anjo ó serve pra fecha o pacote de esquisitice. O que você viu de mim lá em cima foi só o choque inicial da coisa.

- O beijo que você me deu também foi só o choque inicial?

- Se fosse isso eu estaria chocado agora, não quer vim aqui pra me acalmar, não?

- Tarado, tenta beijar o rato que você ganha mais.

- O que eu ganharia beijando um rato?

- Não sei, algumas doenças talvez, mas pelo menos não seria a metade do soco que eu iria te dar se você me beijasse agora.

- Você me socaria mesmo? Lá em cima me pareceu que você estava com ideias bem diferentes na cabeça.

- Tarado. Fala logo quem você é!

- Descubra. Qual seria a graça se eu mesmo falasse?

- Pra você nenhuma.

- Então, vamos aproveitar que estamos mesmo com os dias contados neste calabouço.

- Não. A gente não vai morrer, eu vou arranjar um jeito de sairmos daqui.

- Oh magnifica pessoa inteligente, qual é o seu plano?

- Por enquanto nenhum, mas já, já irei pensar em alguma coisa.

- Boa sorte.

- Por que você é tão pessimista?

- Não sou pessimista, apenas realista.

- O que de certo modo faz a pessoa virar pessimista.

- Se pensa assim, quem sou eu para contrariá-la?

- Um garoto mascarado, tarado, sem educação que não quer dizer quem ele é por detrás dessa mascara que nem deu pra mim ver por causa do escuro. Quem sabe de manhãzinha não dê pra mim descobrir.

- Isso magoou e já é de manhã, estamos em um calabouço, aloou? Sem sol.

- Isso mesmo, acaba com as minhas esperanças.

- Vem aqui que eu te consolo.

- Olha que eu taco outro rato!

- Calado.

- O que será que aconteceu com o Adam e o Adrian1? - Adrian 1, foi o primeiro que apareceu pra mim e o que dançou comigo ontem. Adrian 2 é o demonio chato que transformou minha melhor amiga em alguma coisa – Você não é nenhum deles, é?


- Acha mesmo que se fosse, iria te falar?

- Não, mas não custa tentar, né?

- Já pensou no grande plano?

- Ainda não, é muito difícil pensar com alguém te irritando, sabia?

- Não seja por isso.

Depois de três minutos de silêncio, fico quase louca pelo barulho dos roedores ao redor. Mas quando ia pedir para o mascarado começar a cantar novamente, a porta é aberta e escuto passos descendo a escada.



- O que você quer agora? Pensei que sua última visitinha já tinha sido bem esclarecedora – começo a falar.

- Quer calar a boca!

- O que é isso? Onde estão seus modos?

- Eu juro que se você não ficar quieta agora, eu não te solto.

- Me soltar? Quem é?

- Não está reconhecendo minha voz? Assim você me magoa.



- Adam? É você?

- Quem mais estava esperando que fosse? O bobo da corte?

- Como você conseguiu fugir? Onde se escondeu? E como vai tirar a gente daqui?

- Nossa, nem um “Oi amiguinho! Que bom ver que você está vivo e não se sente traído por eu ter guardado um belo segredo de você!”

- Só estou esperando você nos tirar daqui para te esmagar em um abraço, não percebeu? - era verdade.

- Tá bom... Respondendo a sua pergunta, eu fiz o guarda que estava cuidando da porta e, conseqüentemente, das chaves tirar uma sonequinha.

- Você o matou? - perguntei espantada.

- Não seja dramática, só o droguei e o enfiei em uma sala abandonada.



- Drogou com o quê?

- Tinha umas plantas na nossa bolsa.

- E como você sabia quais eram? E qual seu uso? Além do mais, onde você conseguiu a bolsa? Pelo que eu me lembre nós a deixamos no quarto da pensão.

- Quando a luz voltou e você falou pra mim fugir, eu fiz isso e depois voltei. Por que tantas perguntas? Não confia mais em mim?

- Claro que sim, não é isso, é só que fiquei muito tempo presa aqui sendo atormentada pelo mascarado, que acho que acabei paranóica - não sei o que, mas tinha alguma coisa de muito estranho com ele.

- Quem é mascarado?

Ninguém sabe, só um cara que me beijou a força e desde então tem sido meu companheiro de calabouço. A propósito, eu taquei um rato nele, porque ele estava cantando muito alto. Não, isso não vai dar certo.

- Então, quem é ele?

- Deixe que eu mesmo me apresente.



- Quem está aí?

- É o que eu iria explicar se você não tivesse me interrompido. Não posso lhe dizer meu verdadeiro nome por causa desta jovem donzela que estava falando com você, mas posso lhe dizer os vários apelidos que ela já me deu.

- Cala a boca! - falei pra ele.

- Por que? Já está com ciúmes que ele está falando comigo e não com você?

- Você não presta mesmo.

- Não diga! Pois bem, pode me chamar de tarado, mascarado, tarado – misterioso e cavalo, só isso pelo que me lembre.



- Por que tarado?

- Nada não, sabe? É só um apelido carinhoso que eu dei pra ele.

- Porque eu a beijei “a força”, com aspas por favor, já que ela deve ter gostado bastante para começar a retribuir.

- Você à o quê? - Adam começou com a voz um pouco alterada.

- Cretino, convencido!

- Ganhei mais adjetivos. Sorte a minha.



- Será que você pode nos tirar daqui de uma vez Adam?

- Como assim “nos”?

- Você não está pensando em deixá-lo aqui para que seja morto, não é?



- Por que não?

- O que aconteceu com você? Está tão estranho.

- O que quer dizer com isso?

- Meu verdadeiro amigo Adam poderia ser tudo, irritante, chato, legal, bonito, mas nunca, jamais foi tão frio ao ponto de deixar uma pessoa morrer por um capricho.

- Bem, parece que você não me conhece.

- Também acho.



- Ótimo, então que tal você ficar aqui esperando com seu tarado até que eu mude de ideia e volte para te libertar? - e com isso ouvi seus passos se afastando, ouvi também o barulho enferrujado de uma cela sendo aberta e depois o baque de um corpo no chão.

- Tarde demais gracinha.

- O que você fez?

- Soquei seu amigo.

- Como saiu da cela em primeiro lugar?

- Enquanto ele estava muito ocupado declarando seu amor por você, eu simplesmente me aproximei e peguei a chave em seu bolso. O idiota nem percebeu.

- Você é um ladrão, ótimo, quando eu consigo descobrir alguma coisa sobre você, descubro que é um ladrão, muito bom.

- Não fique assim, eu sou bonzinho.



- Acredito, agora será que dá pra me tirar daqui?

- A tranca foi aberta e eu fui libertada.

- Vamos antes que percebam nossa fuga.

- Claro, você o carrega?

- Carregar quem?

- O Adam ora essa! Eu não vou deixá-lo aqui, pode esquecer.

- Mas ele ia me deixar aqui para morrer, por que não posso fazer o mesmo com ele?

- Porque estou mandando. Agora vamos, carregue logo.

- Algum dia você ainda vai se arrepender disto.

- Talvez, mas enquanto este dia não chega, que tal andar mais depressa?